13/11/17
Valdeci Ferreira conquista edição 2017 do Prêmio Empreendedor Social
Valdeci Ferreira, fundador da Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados, venceu o Prêmio Empreendedor Social com um modelo de franquia de unidade prisional sem guarda e arma, já exportado para 19 países. Voluntário há mais de 30 anos, Ferreira conquistou o maior concurso da área na América Latina na noite de segunda-feira, 6 de novembro, em cerimônia no Teatro Porto Seguro, no centro de São Paulo. A cerimônia do Prêmio Empreendedor Social, uma iniciativa da Folha de S.Paulo em parceria com a Fundação Schwab, contou com 160 projetos inscritos neste ano; 40 deles chegaram à segunda fase e seis foram finalistas.
O Empreendedor Social de 2017 foi eleito por um júri composto por especialistas de diferentes áreas. Participaram da avaliação deste ano, a presidente do Conselho da Fundação Schwab, Hilde Schwab; Maria Cristina Frias, colunista de "Mercado" na Folha; Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e professor na USP; e Ronaldo Iabrudi, diretor-presidente do Grupo Pão de Açúcar. Também foram jurados Regina Esteves, diretora-presidente da Comunitas, organização que estimula investimento social corporativo; Marilene Ramos, diretora das áreas de Energia, Gestão Pública, Socioambiental, Saneamento e Transporte do BNDES; Sérgio Andrade, vencedor do Prêmio Empreendedor Social 2015; e João Carlos Martins, pianista e maestro.
 
Metodologia humaniza cadeias e reduz a reincidência
Há exatos 34 anos, Valdeci Ferreira adotou a recuperação de criminosos como missão de vida. A devoção a uma metodologia – implantada em cinco Estados brasileiros e 19 países – é a resposta a um chamado espiritual aos 21 anos. Criado em uma família religiosa e envolvido em obras sociais da Igreja Católica, escrevia e encenava peças de teatro amador em asilos, creches e hospitais. Com esse trabalho voluntário, visitou uma prisão pela primeira vez em 1983; não resistiu por mais de 15 minutos, pensando o quão pequeno era diante da situação dos encarcerados. Quatro anos depois, ele implementou em Itaúna um método para administrar e assistir prisões, que é baseado em uma rotina de 12 passos inspirados em valores cristãos. Hoje, as unidades da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) – geridas pela federação criada por Ferreira – são conhecidas por serem prisões nas quais os internos têm as chaves das próprias celas.
Em 1995, fundou a Fraternidade Brasileira de Assistência ao Condenado (FBAC) – uma forma de ajudar a organizar as atuais 48 unidades da APAC em uma federação; o objetivo é dialogar de maneira mais produtiva com o poder público. A iniciativa já beneficiou 3.500 internos e contabiliza 150 unidades em fase de implementação. Hoje, a FBAC supervisiona a metodologia das APACs e negocia com governos estaduais a implementação das novas "cadeias humanizadas".
Segundo Ferreira, "os presídios são desertos de miséria e sofrimento. O Estado está ausente e as facções ocupam o espaço. A sociedade, ferida por essas pessoas, esquece que os abandonados atrás das grades um dia voltarão para o convívio social; voltam piores". Em contrapartida, as APACs são pequenos oásis. "Aplicamos a pedagogia da presença e caminhamos com aquele que cometeu o delito, oferecendo uma chance de mudança de vida", explica. E, como resultado, ao contrário do nível de 85% de reincidência nas cadeias comuns, as APACs mostram índices próximos a 28%. Há outros atributos de performance que destacam vantagens frente às cadeias tradicionais.
Sobre a conquista do Prêmio Empreendedor Social, Ferreira diz que foi uma grande surpresa – sobretudo porque o Brasil conta com pessoas que fazem um belíssimo trabalho. "Ao mesmo tempo que me sinto lisonjeado pelo reconhecimento, eu me encho de esperança que essa indicação traga visibilidade para a causa. Ser indicado a um prêmio como esse, com um trabalho de voluntariado que há 34 anos nada contra a corrente, é bom demais. O nosso trabalho, ao contrário do que muitos pensam, não está somente na recuperação do preso. Está, sobretudo, na proteção da sociedade. No cumprimento da lei. Temos a dupla função de recuperar e proteger a sociedade, pois esse preso vai voltar às ruas. E é melhor que volte à sociedade recuperado. Ciente dos direitos e deveres. Sabendo que foi tratado com respeito", afirma.