24/03/18
"Até quando teremos que perder quem amamos para que algo seja feito a respeito?"
Jovem chama atenção para o grande número de suicídios em Itaúna provocados pela depressão 
O espaço da reunião do Legislativo, a Tribuna Livre, foi usado por Jennifer Paloma Vilaça Diniz que falou sobre políticas públicas no combate à depressão e ao suicídio. Jennifer emocionou a todos com o apelo que fez aos vereadores para que políticas públicas verdadeiramente eficazes permitam que as pessoas acometidas pela depressão tenham tratamento correto e acolhimento. Estamos transcrevendo partes de seu depoimento, mas devido à emoção que tomou conta da jovem muitas palavras ficaram inaudíveis.
Jennifer contou que área da saúde mental, desde 2016, não tem psicólogos para cuidar dos pacientes com depressão, seja por uso de drogas ou pela própria doença. "Conheço muito bem o que acontece atrás da depressão. Sofro deste mal e perdi recentemente alguém para ele. Ouçam-me com atenção, porque realmente é preciso conversar sobre isto e encontrar soluções em nossa cidade que vá além de audiências, palestras, cartilhas e treinamentos. Depressão é o mal do século. Suas vítimas só crescem e muitas vão a óbito por isto. Não há mais como tampar os olhos enquanto há pessoas morrendo em nossa cidade, não podemos nos afugentar e deixar este assunto debaixo dos panos com a desculpa que é preciso cautela ao abordar o tema. Temos que nos posicionar em relação aos fatos enquanto o dano colateral só cresce. Devemos abordar o tema de maneira responsável com o intuito de prevenir e prolongar a vida. E não podemos esperar chegar o Setembro Amarelo para falarmos deste assunto. Hoje em nossa Prefeitura temos um prefeito médico, e isto me faz pensar o que poderia estar ou esteja fazendo a respeito deste problema de saúde pública, que só piora em nossa cidade, com seus números crescendo absurdamente a cada dia".
"Caríssimos vereadores, creio que muitos aqui já conviveram com alguém que passava por isto e não souberam como agir por falta de conhecimento, prevenção e acolhimento porque tudo isto tem que estar lado a lado em relação a este assunto. Não esperem que percam alguém próximo desta forma trágica para entenderem a importância deste grito de socorro (ela chora) muitos estão sofrendo e buscando o auxílio, mas como podemos fazer se não podemos contar nem com a ajuda do Município? Descobri que alguns profissionais como psicólogos estiveram aqui procurando solução para este problema, mas as pesquisas e ideias foram engavetadas. A minha intenção por estar aqui é que ouçam o meu apelo e de muitos que se encontram nesta situação e mal conseguem falar. Justamente para que possamos agir de forma preventiva e colaborativa para diminuirmos os índices tão assustadores de Itaúna. Relato a minha história como exemplo. Sofro de depressão desde os meus 11 anos quando atentei contra a minha vida a primeira vez, há 19 anos. Lembro-me de ter saído do hospital mil vezes pior do que lá entrei, como por exemplo, com os comentários inapropriados de muitos que lá trabalhavam na época e a falta de preparo total. Isto, infelizmente, ocorreu mais de uma vez. O tabu criado em torno deste assunto só faz piorar a falta de conhecimento, fazendo com que as pessoas aumentem ainda mais seu preconceito. Acredito que, se uma assistência social fosse encaminhada para fazer um trabalho a fundo do caso, outras tentativas não ocorressem e, quem sabe, outros da minha família tivessem obtido ajuda e não sofressem deste mal. ...
"... O atendimento do Caps é pouco eficaz, muito superficial, nada abrangente e nem um pouco acolhedor. ... Falaram-me, desde 2006, que eu poderia fazer um acompanhamento com psicólogos que seriam enviados para os PSFs, mas até hoje nem um psicólogo se encontra em nenhum posto de saúde. No Caps fui informada que não haverá atendimento de psicólogos. Dias atrás fui ao Caps, onde tinha consulta marcada com o psiquiatra, mas ele não compareceu ao trabalho e isto acontecia inúmeras vezes que lá busquei auxilio".
Jennifer citou o nome de seis pessoas que perdeu para a depressão em menos de cinco meses, pessoas que se mataram. "Então, para aqueles que se foram e os que ficaram em retalhos, os que sofrem com isto e não tem além de apoio, muito menos atendimento de qualidade e eficácia, venho buscar resposta do atual governo em relação ao número frequente de suicídios e depressão sempre aumentando em nossa cidade. Quais são os serviços de que Itaúna dispõe? O que tem em nosso município especializado em suicídio e tratamento? Qual o marketing desenvolvido para a intensificação destas campanhas? Não seria de interesse da cidade, da Universidade de Itaúna, Assistência Social e todos os responsáveis pensarem a respeito desta situação? E se buscássemos a implantação de curso de psicologia para ajudar no acompanhamento? Não está na hora de criar um plano de prevenção, um centro de valorização da vida, uma linha telefônica destinada para este tipo de auxílio, grupo de encontros de ajuda para as pessoas sobreviventes? O que poderá ser feito em nossa cidade para podermos sair desta posição do ranking, sabemos que estes índices estão ultrapassados e Itaúna não está mais no 8º lugar e pode ter chegado ao 5º! Em Itaúna, ninguém faz nada, gente! Até quando teremos que perder quem amamos para que algo seja feito a respeito?